sexta-feira, 2 de março de 2007

A Escolinha do Prof. Samuca

Pelo que ando lendo, continua pegando fogo ai pelo Brasil o debate sobre um possivel vies anti-americano de nossa diplomacia.
Pra mim, faltou classe pra dizer adeus graciosamente ao nosso bravo Embaixador Abdenur, a quem conheci em Washington em 2004. Embora concorde que seja ridiculo submeter nossos diplomatas a "leituras obrigatorias" - o que no fundo implica questionar sua capacidade de formular pensamentos criticos -, acho que o desejo de vendetta do ex-embaixador lhe embacou as vistas.
Abdenur: Fera Ferida

Pior eh que, bem aa moda brasileira, o debate se superficializa: tucanos acusam petistas de ideologicos, petistas acusam tucanos de subservientes aos americanos.

Pra comeco de conversa, vamos ser honestos, houve uma epoca em que a politica externa brasileira era totalmente subordinada aos interesses de uma potencia imperial. Sabe quando? Quando os portugas mandavam nela (Secs. XVI-XIX). E quem dava as cartas neste periodo eram os ingleses.

Comecando pelo Tratado de Methuen (1703), os portugas trocaram o apoio politico e militar ingles e uma preferencia de um terco na tarifa de importacao de vinho por uma abertura de seu mercado para as las inglesas. De uma so tacada conseguiram matar a incipiente industria portuguesa, e entregaram de mao beijada para os ingleses todo o ouro produzido no Brasil ao longo do Seculo XVIII.

Com a transferencia da Coroa Portuguesa para o Brasil (1808) e a abertura dos portos aas "nacoes amigas", os ingleses rapidamente trataram de assegurar o acesso preferencial ao mercado brasileiro: o "Tratado de Alianca e Amizade" de 1810 garantiu para os produtos ingleses uma tarifa ad valorem de 15%, quando os proprios portugueses pagavam 16%, e os demais 24%.

Essa situacao perdurou ate meados do seculo, quando a emergente elite cafeeira do Brasil comecou a trombar com os ingleses. A partir de entao, e principalmente a partir da proclamacao da Republica em 1889, nossa politica externa passou a ser formulada "em casa", e a casa dos ingleses caiu. Ninguem entrou no lugar.


Desde a gestao do Barao do Rio Branco no inicio do Seculo XX ate hoje, salvo pequenos periodos de alinhamento "automatico" com os EUA (Governo Dutra 1946-50 e primeira decada do regime militar, 1964 -1970) a politica externa brasileira eh marcada pela independencia.

Barao do Rio Branco: Nota de Um Cruzeiro e o Signo da Independencia

Getulio soube tirar proveito economico de sua dubiedade ideologica. Houve o GATT em 1947. A famosa "politica externa independente" de Afonso Arinos e Santiago Dantas nos Governos Janio/Jango; o rompimento dos Acordos Militares com os EUA e o Acordo Nuclear com a Alemanha no Governo Geisel; Mercosul com Sarney.

Ah, e teve tambem FHC, aa moda de Rio Branco, usando contenciosos internacionais para alavancar a posicao internacional do Brasil no inicio deste seculo.

Portanto, meu caro Embaixador Abdenur, deixa o Itamaraty trabalhar em paz. Ter uma politica externa independente nao eh apenas necessario. Eh uma tradicao historica.

6 comentários:

Unknown disse...

Pablo, lamento o tom do comentário sobre o embaixador Abdenur! Ele saiu com classe, sim! Nada de vendetta esconde seus comentários que já eram feitos internamente às autoridades competentes...

Anônimo disse...

Lila querida, quando escrevia esse post TINHA CERTEZA que vc ia comenta-lo... a ideia era provocar mesmo.

Aos debates internos infelizmente (ou felizmente?) nao tive acesso. Roupa suja se lava em casa, nao eh mesmo?

Legal, continue visitando! Acho que em Maio vou pra ai, e podemos discutir "over oysters" no nosso Old Ebbitt!

bjs!
P.

Anônimo disse...

Pablo, concordo contigo com relação ao Emb. Abdenur, creio que no caso ele se prestou a um papel que certamente não corresponde a seu gabarito. Tá na cara a magoazinha, o rancor e um certo oportunismo dele. Mas isso passa, ele é um grande homem e terá tempo para reavaliar suas atitudes. Qto ao histórico da PEB, tá meio simplificado, né, mas é mais ou menos por aí. Qto à Escolinha, era uma situação vexatória, constrangedora, meio bizarra, mas estava longe de ser doutrinação. Nenhum diplomata é bobinho para ser doutrinado por 3 ou 4 livros, mesmo porque apenas um deles pode ser, com um mínimo de bom senso, considerado doutrinador. Abraços, AF

Unknown disse...

"creio que no caso ele se prestou a um papel que certamente não corresponde a seu gabarito. Tá na cara a magoazinha, o rancor e um certo oportunismo dele."
Lamento, mas a visão de vcs é demasiado simplista... não se trata de mágoa ou rancor, apenas pode trazer a público o q vinha sendo comentando "intra muros"
com relação à obrigatoriedade das leituras, convenhamos q ninguém (adulto física e mentalmente) se deixa influenciar por leituras de nível tãpo primário! mas pq obrogra alguém a ler este ou aquele? Obrigar é a palavra exta pq mesmo q o infeliz já os tivesse lido era obrigado a ficar sentado em uma sala e lê-los, com ficalização... Além do mais, não me parece q os cofres públicos devam pagar para , pelo menos, meia dúzia de diplomatas ficarem parados lendo e depois terem que fazer uma provinha...

Unknown disse...

PB,

As ostras continuam sensacionais!
De vêz em quando é bom trazer a roupa suja para o varal, o sol ajuda a mantê-las mais brancas e cheirosas! Chama-se: "quarar" a roupa! É o q as nossas avós mandavam fazer!

Anônimo disse...

blitos,

Foi sim meio chato, meu, mas a verdade e que o Abdenour andava meio esquecido que embaixador e cargo de confianca do presidente, ne, um minimo de compostura...