quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Speed Dating

Eu morava em Nova Iorque desde 2001, e como todo escritor que se preze, passava fome. Tinha sido recusado por sete editoras, estava três meses atrasado no meu aluguel. Sem ter meios para me sustentar, eu "ganhava" a vida roubando gorjetas deixadas por yuppies sobre os balcões dos bares da moda. Além de não ter um puto, eu não trepava havia nove meses. Estava louco, prestes a currar à forca alguma das bar hoppers magricelas e ultra-maquiadas que eu encontrava nas minhas expedicões de "coleta".

Num dia chuvoso de outono, saindo do Gray Papaya's do Village, recebi de um porto-riquenho um flyer com os dizeres: ARE YOU TIRED OF BEING ALONE?

Nem precisei formular mentalmente a resposta. Descobri, mais tarde, que se tratava de um servico de speed dating. Aproximadamente duzentos solteiros pagariam 20 pilas para conhecer o maior número possível de candidatas em duas horas, conversando por quinze minutos com cada uma. Calculei rapidamente que assim conheceria ao menos oito mulheres – e o preco pareceu-me bem razoável. Na mesma noite, roubei 20 dólares no Pravda e me inscrevi.

No sábado à noite, joguei por terra o que restava de meu orgulho e compareci ao saguão do Hotel Tribeca. Trajava o meu melhor paletó, já algo puído, e o cabelo domado à custa de um quilo de gel. No balcão de identificacão, onde paguei os vinte paus e ganhei um crachá enorme com o meu nome, examinei de canto-de-olho a concorrência. Tô fudido, pensei. A maioria dos caras eram mais jovens, mais bonitos, e principalmente mais bem vestidos do que eu. Para as mulheres, sequer tive coragem de olhar. Tive medo de trair o meu desespero, e acabar com minhas chances de êxito. Não que fossem muitas.

Soou a campainha que indicava o comeco da maratona de dates de quinze minutos. Os homens rodavam de mesa em mesa, as mulheres permaneciam sentadas. Através da mesa, examinei a minha primeira "candidata". Seu nome era Rose, tinha os olhos miúdos e era morena. Dei-lhe uns trinta e cinco anos, mas poderia ser mais. Julguei-a um pouco castigada pela vida, mas ainda havia vestígios de beleza pubescente no sorriso cordial com que me recebeu.

- Ola, sou Rose. Sou arquiteta por formacao, mas trabalho como auxiliar administrativa numa firma de advocacia em Midtown. E você?

- Hã..... sou escritor. Ou estou tentando ser.

- Sério, que interessante, mentiu Rose. Mas o que você faz para ganhar a vida?

Me enrolei todo, gaguejei, e ao final menti que havia recebido uma heranca de um tio distante. Não colou, e o papo morreu aí. Por isso que ninguém vai me publicar nunca, pensei. Puta imaginacão de merda para um escritor! Fitei Rose, em silêncio, pelo que restavam dos quinze minutos, e nos despedimos aliviados. Nosso adeus foi o único momento em que ela me pareceu verdadeiramente feliz.

Sentei-me à frente de Marta, um tipo meio mediterrâneo. Tinha um nariz desproporcional ao resto de seu rosto afilado, e tinha exagerado no perfume. Mas achei-a bastante atraente. Ela se apresentou bastante formalmente, e foi logo perguntando:

- Qual a sua religião? De onde vem a sua família? Alguns de seus pais já teve alguma doenca congênita?

Putz, Marta estava em busca de um marido. Por um instante pensei em alimentar suas ilusões, mas logo recordei-me que não tinha mais um puto no bolso, e no caso de Marta mentir certamente me custaria caro.

Ao meu encontro com Marta sucederam outros desastres iguais ou piores. Logo no terceiro date eu percebi que ser escritor não te dá muita cancha com as mulheres. Para Jackie, eu disse que era psiquiatra. Para Roberta, violinista. Não adiantou. De Sílvia, tomei um fora antes do terceiro minuto. Erica mal me dirigiu a palavra. Fui ficando cada vez mais emputecido. Nunca precisei pagar para ser humilhado pelas mulheres, elas sempre o fizeram de graca. Dirigi-me ao meu último encontro já varado de ódio e de arrependimento.

- Oi, meu nome é Ana. Tudo bem?

Olhei-a no fundo dos olhos com toda a minha ira, e despejei:

- Não, não está tudo bem. Acho que eu sou um IMBECIL de estar aqui, e acho que você é uma PUTINHA de ter pago vinte paus para conhecer um bando de cuecas desesperados, quando poderia muito bem ir a qualquer bar e trepar com o primeiro desclassificado que aparecesse!


Transamos naquela mesma noite.

5 comentários:

Anônimo disse...

La dolce vitta

Anônimo disse...

ou seria La dolce vita?

bom feriado, um viva às mulheres

Anônimo disse...

Ai, um tapinha não dói, um tapiiinha....

Anônimo disse...

J. D. Salinger? Dalton Trevisan? Philip Roth? Papa? NDA?
muito bom! bjs.

Anônimo disse...

dê flores, seja gentil, encha a bola, faça tudo certinho... a mulher vai gostar, mas não vai rolar. Agora experimente dar uma desprezada, ignorar, não dar bola, desencanar... a mulher se apaixona. Difícil entendê-las, impossível não amá-las.