terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nadja

"Nadja", de André Breton, marca o meu primeiro encontro com o surrealismo francês, pelo menos nas letras.

André Breton é considerado o grande ideólogo do surrealismo, por ter escrito o célebre "Manifeste du Surrealisme", em 1924. Psiquiatra de formacão, mas escritor por vocacão, ele deu contornos teóricos ao movimento artístico-cultural que virtualmente explodia em diversos campos das artes na Europa dos anos 20.

Um dos princípios estéticos formulados por Breton no seu manifesto é o chamado "automatismo psíquico": um fluxo contínuo de pensamentos diretamente vertidos no papel (ou sob outas formas), ligando o leitor diretamente ao sub-consciente do autor, sem os controles exercidos pela razão.

Pois "Nadja" é a expressão máxima desse princípio. Trata-se basicamente de uma pequena narrativa, em forma de diário, dos dez dias que sucedem o encontro do autor com a personagem-título. Assim mesmo, cowboy, sem gelo nem trama.



Chirico: L'Angoissant Voyage ou L'Enigme de la Fatalité

O encontro de Breton com Nadja é precedido de um elaborado prólogo em que Breton tenta encontrar a resposta à pergunta existencialista que é a primeira frase do livro: quem sou eu? (Qui suis-je?) A resposta, Breton busca no seu meio: na Paris por onde circula, nos poetas dos quais é amigo, na peca de teatro que o atormenta, nos autores que admira. Achei uma forma genial de, a um só tempo, construir a personagem de si mesmo sem burlar o princípio da "escrita automática", ao mesmo tempo em que situando o leitor no contexto cultural em que se deslinda a estória.

Lá pela página 71, Breton encontra-se com Nadja, e fica totalmente obcecado. Nadja é a representacão física do surrealismo, um espírito totalmente livre, sem compromisso com a realidade material. Inicialmente, confesso que ela me pareceu um misto de mendiga, Polyana, e artista amadora. Porém, de maneira aparentemente despretensiosa, Breton descreve como o estado de perturbacão mental de Nadja vai aos poucos se deteriorando, sem nunca deixar muito claro se suas alucinacões são loucura ou realidade. Ele acaba por rejeitá-la para depois ficar sabendo que Nadja fora internada num sanatório. Delicioso constatar como a encarnacão dos princípios que Breton professa rapidamente se transmuta de paixão em repulsa.

Outra grande sacada da obra são suas ilustracões. Fotos de Man Ray, fotos de Paris, pinturas de Ucello, Max Ernst, Chiricco, e desenhos da própria Nadja, são parte integrante da narrativa, pois são os "sinais" que dão pistas ao leitor sobre a psique de Nadja. Algumas dessas obras ilustram este post.


Max Ernst: Mais les hommes n'en sauront rien

No epílogo, uma reflexão sobre a beleza, concluída com fantástico arrebatamento:

"La beauté sera CONVULSIVE ou ne sera pas."

Nadja é um livro belo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Putz, será que aguento?
Fiquei traumatizado quando me embrenhei no surrealismo no cinema:
L'age d'Or e afins.
Acho que nao sou tao sensivel assim...
Mas valeu a dica e a excelente resenha as usual!
Bjo

Anônimo disse...

Então,

Excelente o teu resumo da obra. Bem direto, mas ao mesmo tempo vai no fundo do carne do texto...
maraires2@gmail.com