Pois de Franz Paul Heilborn, (vulgo Paulo Francis), eu li tudo.
Ou quase tudo, considerando que Francis era um romancista bisexto, e um memorialista idem. Seu negocio mesmo eram as cronicas semanais, onde desfilava sua vasta cultura literaria em texto ironico e cheio de girias. Essas porem sao para consumo imediato, e portanto tem prazo de validade curto. Quem leu, leu. Quem nao leu, nao tera o mesmo gosto quando publicarem uma coletanea dos "Diarios da Corte", que ele escrevia para a Folha e depois para o Estadao.
Mas este post eh sobre o Francis escritor. Li seus dois romances "Cabeca de Papel" (1977), e recentemente (hoje) acabei de tracar "Cabeca de Negro" (1979), sequencia do primeiro. Li tambem seus dois livros de memorias, "O Afeto de se Encerra" (1980) e "Trinta Anos Esta Noite" (1994). Ainda falta a coletanea de ensaios "As Filhas do Segundo Sexo" (1982), mas achei que ja tinha material suficiente para mais um post da serie "Perfis EOP".
Acho o Francis interessante como romancista. Lembro-me de ter devorado "Cabeca de Papel" em 2 dias, consumido mais pela trama simples sobre o jornalista-cheiradao-de-direita-mas-na-verdade-espiao-da-KGB Paulo Hesse, do que pelas extensas digressoes sobre os papeis da direita e da esquerda na sociedade burguesa. Apesar das partes que considerei "datadas", o livro eh ambientado num mundo que sempre me fascinou, o da alta boehmia carioca dos anos 70, que reunida no Antonio's enxugava com uisque e cocaina a perda das ilusoes dos anos 60.
Ja "Cabeca de Negro" traz uma trama in crescendo, onde todas as personagens convergem para um face off final numa festa num ape da Zona Sul do Rio. Metade das personagens sao membros de guerrilhas esquerdistas, e sao tratadas com desdem pelo cinico jornalista-narrador Hugo Mann. A outra metade, direitistas vendidos e torturadores, mamam nas tetas da ditadura e nao tem pudor de violentar o primeiro grupo para perpetuar sua condicao social.
Francis, definitivamente, era um homem do seculo XX, e tenho a impressao que para ele foi bom ter morrido em 1997. Ele nao sacou que, mesmo aa epoca em que escrevia seus dois romances, o conflito entre a permanente revolucao socialista e o capitalismo "de mercado" ja estava em vias de ser superado, e que seus livros rapidamente ficariam datados, como de fato ficaram. Dez anos apos "Cabeca de Negro", a queda do muro de berlin acabou com esse assunto.
Ja o Francis memorialista escreveu duas vezes o mesmo livro. "O Afeto que se Encerra" e "Trinta Anos esta Noite" tratam sobre epocas distintas, infancia nos anos 40-50 e golpe de 1964, respectivamente, mas na verdade parecem grandes ensaios sobre os autores que influenciaram o autor. Existem passagens identicas nos dois livros sobre Trotsky, Nietsche, Schumpeter, Russel, etc. Nos intervalos, as estorias, sempre contadas sempre de maneira sarcastica e espirituosa.
Linhas iniciais de "Trinta Anos esta Noite": "Quando o governo Joao Goulart caiu em primeiro de abril de 1964, tomei uma garrafa de uisque inteira. Queen Anne, com uma jovem senhora, como o Rubem Braga chamava mocas de classe. Chorei um pouco. Ou tentei chorar. Jurei resistir. Hoje acho engracado, minha atitude, nao o acontecimento, e, alguns anos mais tarde, ja nao bebia Queen Anne, preferindo uisques mais secos." Enfim, a pretensao de formular um pensamento original sobre o conflito ideologico de sua geracao prejudicou o romancista e memorialista Paulo Francis. Ele brilhou mesmo foi como jornalista e polemista.
Se voce esta entre aqueles que consideram o Diogo Mainardi "genial", e adoooooram os comentarios do Jabor, precisa consumir Francis urgente...
Como aperitivo, deixo um link para um video do Francis no "Manhattan Connection" sobre drogas.
http://www.youtube.com/watch?v=793u6F2bRQc&mode=related&search=
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