quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

The End of the Affair


Graham Greene: revolucionário e estilista.
"The End of the Affair", de Graham Greene, foi o cardápio do mês do meu book club. E marca a volta das resenhas literárias a EOP.

Em "The End of the Affair", Graham Greene subverte as clássicas tramas de traicão. Romances anteriores como "Anna Karenina", "Madame Bovary", "O Primo Basílio", etc. focam na traicão da mulher como o elemento transgressor sobre o qual se desenvolvem a trama e os conflitos entre as personagens. Deliciosamente, em "The End of the Affair", a transgressão não é a traicão, mas sim a fidelidade. Sarah é uma mulher adúltera que decide terminar sem maiores explicacões o caso extra-conjugal que mantinha com o escritor (e narrador) Maurice Bendrix. A busca obsessiva de Bendrix pelas razões do fim da relacão são o centro da trama. Um relato de ódio - e não de amor - como bem coloca o narrador.

O livro é uma aula de técnica narrativa: as duas primeiras partes alternam a busca de Bendrix, narrada em tempo cronológico, com flash backs de seu affair com Sarah. Na terceira parte, Sarah passa a ser a narradora, e através de seu diário roubado por Bendrix, leva o leitor de volta aos acontecimentos narrados nas duas primeiras partes. Não comentei com meus colegas de book club, mas artifício semelhante já havia sido usado por Dostoievsky em "Irmãos Karamazov".

E sabem que é o bad ass que rouba Sarah de Bendrix? Ninguém mais ninguém menos que Ele, Deus-Pai-Todo-Poderoso. É por culpa católica que ela renuncia o amor de Bendrix para ser infeliz ao lado de seu marido, Henry. A certa altura, ela roga a Deus em suas preces: "I want ordinary corrupt human love". Em vão. Derrotada, ela admite a Bendrix: "I caught belief like a disease".

Acho que é o primeiro livro que li no qual Deus é o principal vilão.

Depois de reveladas as razões de Sarah, infelizmente, é só downhill. Tudo vira um romancinho banal de amor e súplica, com um embaracoso final de redencão católica do narrador. Uma pena.

Apesar do final capenga, "The End of the Affair" é um grande livro, e Graham Greene é um estilista da linguagem. Já no primeiro parágrafo se antevê que a viagem vai ser belíssima. Saca só:

A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. I say 'one chooses' with the inaccurate pride of a professional writer who—when he has been seriously noted at all—has been praised for his technical ability, but do I in fact of my own will choose that black wet January night on the Common, in 1946, the sight of Henry Miles slanting across the wide river of rain, or did these images choose me? It is convenient, it is correct according to the rules of my craft to begin just there, but if I had believed then in a God, I could also have believed in a hand, plucking at my elbow, a suggestion, 'Speak to him: he hasnt seen you yet.'

Ducaraleo.

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