quinta-feira, 20 de março de 2008

Continho

Houve um tempo em que os dias de chuva me inspiravam a beber. Qualquer garoinha bastava para que eu adiasse a tortura de dirigir ate em casa, e fosse ao "Pontual" para uma, seis, doze biritas. Naquele finzinho de verao, chovia tanto que os garcons do Pontual me viam praticamente todos o dias. Me dei conta disso quando o Medeiros gentilmente me perguntou porque nao comprava um sapato novo, ja que a sola desse estava furada ha meses? Respondi que minha mae perguntara o mesmo. Depois de um certo tempo, garcom vira da familia, nao tem jeito.

Numa noite de terca, Laura telefonou-me no escritorio. Queria me ver. Vamos tomar um drinque no Pontual?

Olhei pela janela, chovia a cantaros. Vamos.

Pedi para Medeiros nos arranjar uma mesa discreta, nos fundos do bar. Em silencio, fitei Laura por alguns segundos do outro lado da mesa. Deus, como ela estava linda. Nao, como ela era linda. Seu novo corte de cabelo, levemente desarrumado, lhe caia muito bem. Tambem adorava a combinacao tailleur-preto-colar-de-perolas. Sera que ela esta de ligas?

- Laura, mas o que voce quer?

Ela deu um sorriso e respondeu, ingenua:

- Você sabe o que eu quero...

Sim, eu sabia. Conhecia tipos como ela desde que me relacionara com Dalila, quase dez anos antes. Na verdade, naquele momento, eu ja sabia tudo. Comeco, meio e fim. Mas eu não estava disposto a entrelinhas naquela noite. Ela vai ter de dizer.

- Desde quando?

- Não sei, acho que desde sempre. Mas com voce eh diferente. Achei que você já havia reparado o outro dia, dentro do seu carro.

Fiquei em silencio. Ja podia sentir a energia vital pulsando em minhas entranhas. Estava proximo de perder o controle, e aceitar seu jogo de meias-palavras. Calma, pensei. Nada de estragar um momento perfeito. Virei um copo de steinhaeger. Pedi outro. Respirei fundo:

- Laura, voce nao imagina o efeito que isso causa em mim. Eu, como voce, tambem quero, e muito. Mas voce vai ter de me pedir.

Ela olhou para o seu copo de guarana, pensativa. Depois, me encarou fundo nos olhos, muito seria. Jamais esquecerei o olhar de Laura naquele momento. Eram olhos de suplica, e de desafio. Olhos de desejo, e de pavor. Imediatamente entendi que ela estava pronta. Puxei minha cadeira para o seu lado, colei meu labio em seu ouvido, escorreguei minha mao por baixo de sua saia (sim, ela estava de ligas), e apertei a parte interna de sua coxa, com forca:

- Fala!

- Eu quero que voce me bata.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pablo, adorei o "continho".Você é muito bom em ficção. Vai em frente! Sua Tia é a sua leitora mais fiel, não se esqueça disto.
Tia Neide

Anônimo disse...

O conto é uma arte de expressão para poucos.Tem que ter ritmo, clima, enredo e permitir ao leitor imaginar ! Está nascendo um contista. Quem diria !!!!