domingo, 17 de fevereiro de 2008

A Renuncia

Um dos temas que mais me fascina na literatura eh a renuncia ao poder infinito.

A personagem que, ciosa dos limites que lhe impoe a condicao humana, renuncia aa possibilidade de ser Deus, por um momento a Ele se equipara. Paradoxalmente, renunciar ao todo-poder eh a um so tempo medida de humildade e de poder supremo.

Lembro-me do impacto que meu causou quando li, pela primeira vez, "A Maquina do Mundo", de Drummond:

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no ceu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridao maior vinda dos montes
e de meu proprio ser desenganado,

a maquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper ja se esquivava
e so de o ter pensado se carpia.


A tal "maquina do mundo", que se revelara ao poeta continha a chave para todos os enigmas do Universo, toda a sabedoria acumulada pelo homem,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos aa verdade;

e a memoria dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existencia mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido aa vista humana.

Mas o poeta, como se fora outro, recusa toda sua gloria:
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho

A treva mais estrita ja pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a maquina no mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de maos pensas.

O mesmo tema foi abordado inumeras vezes por Borges. Para ele, toda a experiencia humana eh uma repeticao de alguma outra ocorrida muitos anos antes, o que constituiria prova cabal da existencia do infinito. Em "El Aleph", Borges eh convidado ao sotao de um escritor mediocre, por quem nutre desprezo, para que la encontrasse "El Aleph", um ponto a partir do qual se pode ver todos os pontos do universo. E ao mira-lo:

Cada cosa (...) era infinitas cosas, porque yo claramente la veia desde todos los puntos del universo. Vi el populoso mar, vi el alba y la tarde, vi las muchedumbres de America, vi una plateada telarana en el centro de una negra piramide, vi un laberinto roto (era Londres),
vi interminables ojos inmediatos escrutandose en mi como en un espejo, vi
todos los espejos del planeta y ninguno me reflejo (...)

No entanto, ao descer do sotao, quando seu "amigo" Carlos pergunta sobre o Aleph:

Benevolo, manifiestamente apiadado, nervioso, evasivo, agradeci a Carlos Argentino Daneri la hospitalidad de su sotano y lo inste a aprovechar la demolicion de la casa para alejarse de la perniciosa metropoli, que a nadie, creame!, que a nadie! perdona. Me negue, con suave
energia, a discutir el Aleph; lo abrace, al despedirme, y le repeti que el campo y la serenidad son dos grandes medicos.

En la calle, en las escaleras de Constituicion, en el subterraneo, me parecieron familiares todas las caras. Temi que no quedara una sola cosa capaz de sorprenderme, temi que no me abandonara jamas la impresion de volver. Felizmente, al cabo de unas noches de insomnio, me trabajo otra vez el olvido.
Seria o antagonismo entre o infinito e o homem heranca torta do Iluminismo?

Nada disso. O tema eh tao antigo que pode ser encontrado ate no Evangelho de Lucas (IV, 5-8), no episodio em que o Diabo vai tentar Jesus no deserto onde passava quarenta dias (episodio que Vinicius de Moraes usou de epigrafe para "Operario em Construcao"):

O demonio conduziu-o a um alto monte, mostrou-lhe, num momento,
todos os reinos da terra e disse-lhe: Dar-te-ei o poder de tudo isto e a gloria
destes reinos, porque eles foram-me dados e eu dou-os a quem me parece.
Portanto, se tu me adorares, todos eles serao teus. Jesus, respondendo,
disse-lhe: Esta escrito: "Adoraras o Senhor teu Deus, e a ele so serviras."

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