O MITO
A personagem do terceiro capítulo da série perfis EOP é o legendário cafetão Fillmore Slim. Coube a mim a infeliz tarefa de retratá-lo nestas poucas linhas, o que se me afigura impossível dada a grandeza de seu mito. Conheci Fillmore Slim pessoalmente, mas não fomos amigos. Quando muito, trocamos palavras por três vezes, e todas na mesma noite. O relato que segue, portanto, reflete a tradicão oral que se formou ao redor de sua figura mitológica, sussurada ao pé-de-ouvido por putas, clientes e cafetões, nas ruas, nos bordéis, e nos salões da alta sociedade. Jamais poderei asseverar a veracidade dos eventos que aqui descrevo.
O INÍCIO
Os relatos divergem sobre a data e local de nascimento de Fillmore Slim. Sua certidão de nascimento o registra como Leonard Elmore e o inscreve no Primeiro Registro Civil de Nova Orleans, Lousiannia em 13 de maio de 1935. Mas também é comum a versão de que na verdade nascera a 7 de agosto de 1931 em Peoria, Illinois, sob o nome de Joseph Rosebudd, filho ilegítimo de um afluente comerciante branco com uma lavadeira negra.
Também conflitam os relatos sobre sua infância. Dizem ter sido criado por pai acougueiro, enquanto a mãe se prostituia nas calcadas da infame Fillmore Street, em Nova Orleans, cujo nome adotaria posteriormente como se fora de batismo. Paola, uma de suas prostitutas, me disse certa vez que Fillmore teria sido abandonado por sua mãe ainda bebê em um reformatório na Pennsylvania. Lá, teria sido protegé de Thurgood Marshall, o primeiro negro a sentar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Fillmore, à sua maneira, foi um dos precursores do civil rights movement, pois já em 1955 tinha duas dezenas de garotas negras e brancas trabalhando para sustentá-lo.
O fato é que em 1951 Fillmore Slim ainda ganhava a vida apostando partidas de sinuca no Sloppy Joe's de Chicago, onde jogava sob o nome Don Bishop. Recém entrado na adolescência, e ainda ignorando o fascínio que exercia sobre as mulheres, Fillmore vislumbrava uma brilhante carreira como jogador profissional. No outono de 1951, porém, cruzou seu caminho a legendária Kelly Smith, então uma belíssima universitária loira que viera de Kentucky para estudar ciências sociais na Northwestern University. Kelly se entregou para Fillmore na primeira noite em que se conheceram. Na noite seguinte, Kelly voltou ao Sloppy Joe's com a mesma intencão, mas trouxe consigo 125 dólares, que voluntariamente entregou para Fillmore. Este sorriu maliciosamente, como em epifania, e disse: "Girl, I'm gonna pimp your ass!"
O EXÍLIO
Em 1964, eu "trabalhava" 7 garotas na calcada do Sunset Boulevard, em Los Angeles. Ali estavam alguns dos melhores cafetões do País, e suas melhores putas. Dinheiro era nossa religião, e o Sunset Boulevard, a nossa Meca. A competicão acirrada e os dólares fartos tornavam corriqueiro que os cafetões roubassem as putas uns dos outros, prática que chamávamos de knocking.
Correu o boato de que o célebre Fillmore Slim, então conhecido como o maior cafetão dos Estados Unidos, estava de mudanca para L.A. Aparentemente, uma de suas garotas trabalhava meio-período numa video-locadora que fora assaltada por policiais em Nova Orleans. Ela tornara-se então a única testemunha em um julgamento bastante conturbado, e às vésperas da audiência de instrucão, aparecera morta com oito tiros no rosto. Foi o suficiente para que Fillmore percebesse que era hora de buscar o exílio.
Na noite de primeiro de abril de 1964, Fillmore Slim apareceu no Sunset Boulevard com seis garotas. Sua aparência esguia e roupas extravagantes não nos impressionaram muito. Seus olhos puxados lhes conferiam uma aparência felina, quase feminina. Seu modo cortês de tratar as garotas não refletia as estórias de violência que contavam a seu respeito, o que nos pareceu evidente sinal de fraqueza. Ao cabo de duas semanas, já tinhamos roubado todas as suas garotas. Parecia o fim da carreira da Fillmore Slim.
Poucos dias depois, encontrei-o no Jake's de Holywood Boulevard, onde cafetões e putas costumávamos fazer after-hours após longas jornadas de trabalho. Contrariando minhas expectativas, Fillmore não parecia aborrecido. Sentou-se à minha mesa e, muito gentilmente, pediu ao garcom uma garrafa de Crystal. Perguntei a Fillmore se ele via algum motivo de comemoracão, tendo em vista os últimos acontecimentos. Pareceu-me sinceramente surpreso: "Que acontecimentos?". Notei que suas garotas o haviam abandonado, o que em nossa profissão em geral significa a ruína. Fillmore sorriu de soslaio, e asseverou: "Não se preocupe." Terminou sua champagne, despediu-se educadamente de todos, caminhou vagarosamente até o telefone no bar, fez uma breve ligacão, e saiu. Pensei que nunca mais veria Fillmore Slim.
Na noite seguinte, Fillmore Slim apareceu no Sunset Boulevard com quinze garotas, das mais lindas e deslumbrantes que jamais havíamos visto. Imediatamente, elas comecaram a trabalhar os clientes com afinco, como se não houvesse amanhã. Ao reconhecer-me, Fillmore disse: "Aquelas garotas eram bois de piranha. Estas são realmente as minhas putas." Em três dias, as seis garotas anteriores haviam voltado para Fillmore, trazendo consigo algumas de nossas garotas. Fillmore estabeleceu-se assim como o maior cafetão do Sunset, com mais de 25 garotas trabalhando para ele em bases regulares. Gostava de se gabar que um preto nascido pobre como ele ganhava mais explorando mulheres do que o presidente da Coca-Cola.
O FIM
O sargento John McKenney encontrou Fillmore Slim morto a quinze golpes de punhal na suíte presidencial do Delano Hotel, em Miami, às 4 horas e trinta e sete minutos do dia 19 de outubro de 1979.
A personagem do terceiro capítulo da série perfis EOP é o legendário cafetão Fillmore Slim. Coube a mim a infeliz tarefa de retratá-lo nestas poucas linhas, o que se me afigura impossível dada a grandeza de seu mito. Conheci Fillmore Slim pessoalmente, mas não fomos amigos. Quando muito, trocamos palavras por três vezes, e todas na mesma noite. O relato que segue, portanto, reflete a tradicão oral que se formou ao redor de sua figura mitológica, sussurada ao pé-de-ouvido por putas, clientes e cafetões, nas ruas, nos bordéis, e nos salões da alta sociedade. Jamais poderei asseverar a veracidade dos eventos que aqui descrevo.
O INÍCIO
Os relatos divergem sobre a data e local de nascimento de Fillmore Slim. Sua certidão de nascimento o registra como Leonard Elmore e o inscreve no Primeiro Registro Civil de Nova Orleans, Lousiannia em 13 de maio de 1935. Mas também é comum a versão de que na verdade nascera a 7 de agosto de 1931 em Peoria, Illinois, sob o nome de Joseph Rosebudd, filho ilegítimo de um afluente comerciante branco com uma lavadeira negra.
Também conflitam os relatos sobre sua infância. Dizem ter sido criado por pai acougueiro, enquanto a mãe se prostituia nas calcadas da infame Fillmore Street, em Nova Orleans, cujo nome adotaria posteriormente como se fora de batismo. Paola, uma de suas prostitutas, me disse certa vez que Fillmore teria sido abandonado por sua mãe ainda bebê em um reformatório na Pennsylvania. Lá, teria sido protegé de Thurgood Marshall, o primeiro negro a sentar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Fillmore, à sua maneira, foi um dos precursores do civil rights movement, pois já em 1955 tinha duas dezenas de garotas negras e brancas trabalhando para sustentá-lo.
O fato é que em 1951 Fillmore Slim ainda ganhava a vida apostando partidas de sinuca no Sloppy Joe's de Chicago, onde jogava sob o nome Don Bishop. Recém entrado na adolescência, e ainda ignorando o fascínio que exercia sobre as mulheres, Fillmore vislumbrava uma brilhante carreira como jogador profissional. No outono de 1951, porém, cruzou seu caminho a legendária Kelly Smith, então uma belíssima universitária loira que viera de Kentucky para estudar ciências sociais na Northwestern University. Kelly se entregou para Fillmore na primeira noite em que se conheceram. Na noite seguinte, Kelly voltou ao Sloppy Joe's com a mesma intencão, mas trouxe consigo 125 dólares, que voluntariamente entregou para Fillmore. Este sorriu maliciosamente, como em epifania, e disse: "Girl, I'm gonna pimp your ass!"
O EXÍLIO
Em 1964, eu "trabalhava" 7 garotas na calcada do Sunset Boulevard, em Los Angeles. Ali estavam alguns dos melhores cafetões do País, e suas melhores putas. Dinheiro era nossa religião, e o Sunset Boulevard, a nossa Meca. A competicão acirrada e os dólares fartos tornavam corriqueiro que os cafetões roubassem as putas uns dos outros, prática que chamávamos de knocking.
Correu o boato de que o célebre Fillmore Slim, então conhecido como o maior cafetão dos Estados Unidos, estava de mudanca para L.A. Aparentemente, uma de suas garotas trabalhava meio-período numa video-locadora que fora assaltada por policiais em Nova Orleans. Ela tornara-se então a única testemunha em um julgamento bastante conturbado, e às vésperas da audiência de instrucão, aparecera morta com oito tiros no rosto. Foi o suficiente para que Fillmore percebesse que era hora de buscar o exílio.
Na noite de primeiro de abril de 1964, Fillmore Slim apareceu no Sunset Boulevard com seis garotas. Sua aparência esguia e roupas extravagantes não nos impressionaram muito. Seus olhos puxados lhes conferiam uma aparência felina, quase feminina. Seu modo cortês de tratar as garotas não refletia as estórias de violência que contavam a seu respeito, o que nos pareceu evidente sinal de fraqueza. Ao cabo de duas semanas, já tinhamos roubado todas as suas garotas. Parecia o fim da carreira da Fillmore Slim.
Poucos dias depois, encontrei-o no Jake's de Holywood Boulevard, onde cafetões e putas costumávamos fazer after-hours após longas jornadas de trabalho. Contrariando minhas expectativas, Fillmore não parecia aborrecido. Sentou-se à minha mesa e, muito gentilmente, pediu ao garcom uma garrafa de Crystal. Perguntei a Fillmore se ele via algum motivo de comemoracão, tendo em vista os últimos acontecimentos. Pareceu-me sinceramente surpreso: "Que acontecimentos?". Notei que suas garotas o haviam abandonado, o que em nossa profissão em geral significa a ruína. Fillmore sorriu de soslaio, e asseverou: "Não se preocupe." Terminou sua champagne, despediu-se educadamente de todos, caminhou vagarosamente até o telefone no bar, fez uma breve ligacão, e saiu. Pensei que nunca mais veria Fillmore Slim.
Na noite seguinte, Fillmore Slim apareceu no Sunset Boulevard com quinze garotas, das mais lindas e deslumbrantes que jamais havíamos visto. Imediatamente, elas comecaram a trabalhar os clientes com afinco, como se não houvesse amanhã. Ao reconhecer-me, Fillmore disse: "Aquelas garotas eram bois de piranha. Estas são realmente as minhas putas." Em três dias, as seis garotas anteriores haviam voltado para Fillmore, trazendo consigo algumas de nossas garotas. Fillmore estabeleceu-se assim como o maior cafetão do Sunset, com mais de 25 garotas trabalhando para ele em bases regulares. Gostava de se gabar que um preto nascido pobre como ele ganhava mais explorando mulheres do que o presidente da Coca-Cola.
O FIM
O sargento John McKenney encontrou Fillmore Slim morto a quinze golpes de punhal na suíte presidencial do Delano Hotel, em Miami, às 4 horas e trinta e sete minutos do dia 19 de outubro de 1979.
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