sexta-feira, 13 de julho de 2007

Para Jorge Luis - II

Nota: Este post é para ser lido depois do post "Para Jorge Luis" abaixo.

"Não. Não pode ser. Não pode ter acontecido. É impossível. A Cau está me esperando, preciso correr. Será que digo para ela o que acaba de me ocorrer? Terá sido um sonho? Não pode ter sido sonho, pois tinha razão aquele senhor ao dizer que, se nos encontramos e somos dois, cada um deve pensar que o sonhador é ele. Mas como poderia ele saber tantas coisas a meu respeito? E aquele truque com o dinheiro, seria uma nota falsa? Estou atrasado, vou tomar um táxi.

- Táxi! La Terrace, por favor.

Como pude me tornar tão precocemente decrépito? Não que ele fosse muito velho em aparência, mas sim em espírito. Não pareceu-me particularmente realizado, ou mesmo feliz. Reparei também como me olhou com piedade, como se soubesse que eu estou condenado a viver o seu passado. Terei sido assim tão miserável, para suscitar tais sentimentos? E desde quando passei a utilizar uma bengala? Alegro-me contudo em saber que mamãe ainda estará viva. Sempre tive certeza de que a Cau continuaria eternamente linda.

O que tanto me olha pelo retrovisor este motorista?! Será tão aparente meu desespero? Como posso estar ao mesmo tempo em dois tempos e dois lugares distintos, e encontrar-me comigo mesmo... Ocorreu-me a idéia do arquétipo platônico. Platão quisera demonstrar que dois indivíduos que têm atributos comuns (por exemplo, dois homens), são meras aparências temporais de um Arquétipo eterno. Teria eu me encontrado com meu arquétipo platônico? Lembrei-me da famosa refutacão de Aristóteles, que indagara se todos os homens e "O Homem" - os indivíduos temporais e o Arquétipo - tinham atributos comuns entre si. Como é notório que sim - eles têm em comum todos os atributos da humanidade -, deverá haver então um terceiro Arquétipo, que abarque todos os anteriores, e depois um quarto.... A teoria do terceiro homem.

Se não assistia razão a Platão, talvez não haja nada que me distingua dos demais homens. Talvez eu me pareca com todos os homens. E ao deparar-me com um outro, tão ordinário quanto eu, este pareceu-me a um só tempo tão igual e tão distinto. É porque eu sou todos. E todos sou eu também. Lembrei-me dos versos imortais de Whitman:

Estes são na verdade os pensamentos de todos os homens em todos os
lugares e épocas; não são meus.

Se são menos teus do que meus, são nada ou quase nada.

Se não são o enigma e a solucão do enigma, são nada.

Se não estão perto e longe, são nada.

Esta é a grama que cresce onde há terra e há água,

Este é o ar comum que banha o planeta.

Fui resgatado destes pensamentos pelo motorista do táxi:

- Desculpe amigo, mas o sr. não é Pablo Bentes?

Não respondi.

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