quinta-feira, 21 de junho de 2007

Cabecas de Planilha

Não sei se vocês repararam, mas as resenhas/críticas literárias andam em baixa neste blog.

Isto porque percebi que, nesses quatro primeiros meses de existência de EOP, os posts sobre literatura raramente são comentados. Definitivamente, os posts sobre conjuntura/atualidade são os preferidos dos visitantes, ou ao menos lhes despertam o desejo de contribuir com o blog. No que são seguidos de perto pelos posts sobre viagens.

Daí a tentativa de mudar um pouco o enfoque dos posts literários, tracando um paralelo entre minhas leituras e temas da atualidade. Posts como "Posidonius, George & Papa (tudo no mesmo post)" representam essa nova abordagem.

O que não quer dizer contudo que Papa não continua sendo voraz leitor. Muito pelo contrário, se "A Metamorfose" de Kafka tivesse sido originalmente publicada em EOP, sua frase clássica frase de abertura seria:
"Quando certa manhã Pablo Bentes acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se
metamorfoseado numa TRACA monstruosa" (apud excelente traducão para o português de Modesto Carone).
Assim, essa traca que vos escreve tracou, no último mês, além do já aludido "Rubicon" do Tom Holland, e do "El Libro de Arena", de Borges, o "Cabecas de Planilha", do jornalista e polemista Luis Nassif. Por sorte, este último trata de temas atuais, razão pela qual Papa não precisará lancar mão de nenhuma imaginacão para escrever este post.

Esse tal de Nassif tem culhão. Em "Cabecas de Planilha", ele acusa a equipe econômica do Fernando Henrique de manter a política de câmbio sobrevalorizado entre 1995 e 1999 com o intuito deliberado de beneficiar os "vendidos" do mercado de câmbio, todos ex-integrantes da equipe formuladora do Real.

Figuras como André Lara Resende, Pérsio Arida, Luiz Carlos "Limite da Responsabilidade" Mendonca de Barros, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Chico Lopes & Cia. seriam a versão tupiniquim dos vendilhões do templo. Seu desejo de riqueza teria transformando o sacrossanto ambiente do Banco Central num balcão de negócios, transferindo recursos do Tesouro Nacional para a tesouraria dos bancos de investimentos que eram tocados pelos "escolhidos".

O único poupado é Pedro Malan, retratado de maneira respeitosa como um funcionário público abnegado que resistiu a tentacão de enriquecer facilmente com as políticas que formulava.

A tese de Nassif não me parece de todo inverossímil, apesar de achar que ele deveria ter buscado mais elementos para provar alegacões tão graves. De fato, parece que o pessoal da lista de Nassif não errou uma tacada durante os anos FHC. Hoje, estão todos bilionários, à custa da explosão em nossa dívida pública, e da perda de uma "janela de oportunidade" para o desenvolvimento econômico, segundo Nassif.

A grande sacada do livro é a comparacão dos anos FHC com o período do "Encilhamento", política emissionista promovida por Rui Barbosa entre 1889 e 1891 que proporcionou grandes lucros especulativos a poucos enquanto quebrava o Estado. O paralelo é um pouco tênue, e o Nassif tem que forcar um pouco a mão para comparar momentos históricos tão distintos.

Mas o genial mesmo é que esses dois momentos históricos são unidos por um punhado de papéis: a tese de mestrado um jovem chamado Gustavo Franco que, em 1987, discorria sobre o "Encilhamento" sem suspeitar que, anos depois, incorreria nos mesmos erros de Rui Barbosa, na capacidade de Presidente do Banco Central.

Adoro essas ironias históricas que só a passagem do tempo nos proporciona.

4 comentários:

André Pascowitch disse...

O que tentei te explicar é que no modo blog as pessoas têm preguiça em ler posts com mais de três parágrafos....quebre o seu texto, notícia, conto etc em dois ou mais posts...aí vc terá mais comentários...poucos lêem textos muito longos.

entre no blog do giro depois e deixei o seu comentário lá tb, brou (www.jornalgiro.com.br)

abs, Dé

Anônimo disse...

Pode ser, Dé.

Me pergunto somente se quem ter "preguica de ler" tem algo a dizer...

To passando lá no blog para deixar meu comentário!

Abs

Anônimo disse...

Fala Pablo, não terminei ainda o livro do Nassif, mas tô lendo paralelamente o livro do Bresser "Macroeconomia da Estagnação", há uns dois capítulos, pelo menos, que tratam diretamente da questão apontada pelo Nassif, na minha opinião fundamental: aqueles que formularam e implementaram a política econ. brasi. nos últimos 13 anos ganharam MUITO dinheiro com ela; o mercado não se confunde com o país, não sabe o que é interesse nacional e não tem o menor compromisso com a Nação. Posso elaborar depois, com mais tempo, é uma tragédia que se abateu sobre nós, mas a vida segue, vamos lá... Abs, Antonio

Anônimo disse...

É isso Toni, como já apontaram os mestres Gilberto Freyre e Raimundo Faoro, no Brasil não há limite entre a "res publica" e o interesse privado. O pior é olhar ao redor e ver a nova geracão se comportando da mesma maneira...