sábado, 15 de agosto de 2009

O Poster-Boy da Globalizacão

Observando, do alto, a imensidão ocre do Saara, eu imaginava como seria minha primeira experiência na África. Indo para Angola eu refazia, no sentido contrário, o percurso dos três milhões de negros que, vendidos como escravos, foram ao Brasil formar a matriz do que o mestre Darcy Ribeiro chamou de "O Povo Brasileiro".


Pensei naquele samba do Nei Lopes, "Candongueiro", na voz de Clara Nunes:


Eu sou de Angola,
bisneto de Quilombola
Não tive e não tenho escola
Mas tenho meu Candongueiro



No cativeiro, quando estava capiongo
meu avô cantava Jongo, pra poder se segurar
a escravaria, quando ouvia o Candongueiro
vinha logo pro terreiro para saracotear...




Só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor.

Na chegada, bastou o largo sorriso do simpático oficial da Imigracão, que pelo jeito jamais tinha visto um "Laisser Passer" da ONU, para que eu me sentisse em casa. Naquele momento, não poderia imaginar que o espetáculo que testemunharia nos próximos dias me embrulharia o estômago.


Pois o que vi em Luanda foi um sem-número de companhias estrangeiras explorando as riquezas naturais de Angola, em benefício próprio e de uma pequena elite governamental, sem que as oito milhões de pessoas que moram em favelas na cidade percebam qualquer melhoria em sua qualidade de vida.



A Nova Corrida do Ouro, vista do Hotel Presidente.


A certa altura, perguntei ao "Seu" Kitumba, o simpático motorista do Ministério do Comércio que me levava por toda a parte:


- Seu Kitumba, a coisa aqui em Luanda melhorou de uns tempos pra cá?


- Melhorou sim.


- Por que?


- Porque acabou a guerra.


Segundo me explicara na véspera meu simpático e articulado aluno João Miguel, Angola conhecera um período de relativa tranquilidade até 1975, sob colonizacão portuguesa. Naquela época, esmerava-se em produzir e exportar produtos agrícolas, como café, acúcar, tabaco, milho.


Com a independência e a saída dos portugueses, rompera-se uma violenta guerra civil opondo três grupos de diferente orientacão política e étnica: a MPLA, concentrada em Luanda, apoiada pelos russos, da etnia kimbundu; a FLNA, concentrada no norte de Angola, apoiada pelos EUA, da etnia bacongo; e a UNITA, concentrada no centro e sul do País, de origem ovimbundu, apoiada pela África do Sul (e posteriormente pelos americanos).


A MPLA, com determinante apoio logístico dos cubanos, foi a vencedora do conflito, mas a UNITA somente depôs oficialmente as armas em 2003 (!!!!), com o assassinato do seu líder Jonas Savimbi.



O Ministério do Comércio, rodeado por favelas.


No entanto, os 28 anos de conflito deixaram uma marca indelével: já não se pode cultivar a terra de Angola, infestada por minas terrestres. Toda a infra-estrutura legada pelos portugueses - barragens, estradas, linhas férreas -, foi totalmente destruída. Uma migracão em massa para Luanda transformara a cidade na imensa favela que agora feria minhas retinas.


Mas para um outro grupo, a festa estava comecando. Com o país unificado e pacificado, declava-se aberta a corrida do ouro: contratos milionários foram oferecidos, a precos vantajosos, para qualquer companhia estrangeira que se dispusesse a extrair petróleo e diamantes do rico solo Angolano.



Pajelanca a mil por hora.

Os sinais exteriores desta nova riqueza são vistos nos saguões dos hotéis, super-lotados de Portugueses, Britânicos, e Franceses, e nas SUVs novinhas dirigidas pelo alto escalão do Governo. Mas é só. A maioria da populacão não vê a cor dos petro-dólares, e ainda sofre com o aumento dos precos. Paradoxalmente, Luanda é uma das capitais mais caras e mais pobres de toda a África.

E eu, desgracadamente, poster boy da globalizacão, recebido com loas pelos Exmos. Srs. Ministros do Comércio e da Justica, ensinava aos Angolanos os tratados internacionais que, proibindo restricões ao comércio e limitando subsídios, reduzirá a capacidade de desenvolvimento da indústria local, garantindo que toda a riqueza produzida pelo solo Angolano se esvairá na importacão de bens e servicos produzidos elsewhere.


O Atlântico, visto do outro lado.

Que Deus proteja o povo Angolano.

3 comentários:

Carla disse...

Gostei muito, Pablo.

Eu sempre aprendo com vc...

Fernanda disse...

EXCELENTE.. estimulo fervorosamente outras experiencias na Africa. Além de dar valor pra Luanda deve ficar uma quase necessidade de fazer algo para equilibrar direitos.
Vamos trabalhar para o que realemente importa?
bj
Fe-idealista-racional-tins

JOE disse...

Pelo visto nao foi so no BRASA que os governantes herdaram dos PORTUGA a habilidade de lesar o povo em beneficio proprio. LAMENTAVEL la e ca!