
Valeu, Aristóteles!
Assim como todo o mundo, Papa acompanhou com interesse o discurso de posse de Barrack Obama. Deixo para os chamados "especialistas" uma análise sobre seu conteúdo. Ontem, ao ver Obama em acão, ocorreu-me discorrer sobre a forma de seu discurso.
Quatro séculos antes de Cristo, em "Retórica", Aristóteles estabelecera que um discurso persuasivo era composto por três partes distintas. Ethos, Logos e Pathos. Dois mil e quinhentos anos depois, Barrack Obama seguiu o mesmo script.
Dizia Aristóteles que, em Ethos, o orador deve estabelecer sua credibilidade e boa-fé. Oferecer à audiência as razôes de caráter moral pelas quais está habilitado a discorrer sobre o tema em questão. Não por acaso, Obama abriu seu discurso dizendo: "I stand here today humbled by the task before us, grateful for the trust you have bestowed, mindful of the sacrifices borne by our ancestors." Em seguida, falou sobre os valores fundamentais legados para os EUA por seus founding fathers ("the God-given promise that all are equal, all are free, and all deserve a chance to pursue their full measure of happiness"), e dos sacrifícios feitos no passado em nome destes princípios. Arrematou seu Ethos dizendo: "This is the journey we continue today."
Em Logos - o argumento propriamente dito -, o orador deve oferecer as razões do que pretende demonstrar, valendo-se para tanto do raciocínio indutivo ou dedutivo (silogismo). Obama abriu a parte Logos de seu discurso com um diagnóstico amargo da situacão do País ("For everywhere we look, there is work to be done"), e dando as linhas gerais de seu plano de acão. Ao fazê-lo, refutou TODA a base ideológica do Governo Bush. Rejeitou tanto o liberalismo econômico ("The question we ask today is not whether our government is too big or too small, but whether it works" ... "Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill"), como a falsa dicotomia entre seguranca e liberdade ("we reject as false the choice between our safety and our ideals"). Logo ao lado, W deveria ter corado de vergonha....
Pathos, a parte final de seu discurso, é um apelo às emocões da audiência. Falou-se de heróis e de cruzados, de deveres e de princípios, valores, de fé e patriotismo. Pessoalmente, achei a referência velada à questão racial ("This is the meaning of our liberty and our creed -- why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent Mall, and why a man whose father less than 60 years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath") o momento mais belo do discurso.
Além de seguir os princípios da retórica Aristotélica, Obama ainda lancou mão de alguns cacoetes manjados para dar ritmo e eloquência para sua narrativa épica. Um recurso de linguagem, já mencionado em EOP no post "'Indios", é a Anáfora: repeticão da mesma palavra ou frase no início de cada sentenca: ("For us, they packed up their few worldly possessions and traveled across oceans in search of a new life; For us, they toiled in sweatshops and settled the West; endured the lash of the whip and plowed the hard earth; For us, they fought and died, in places like Concord and Gettysburg; Normandy and Khe Sahn"). Outro foi a utilizacão às mancheias de duplos/contrapontos para dar ritmo aodiscurso ("we gather because we have chosen hope over fear, unity of purpose over conflict and discord...").
Falou e disse, Obama. Boa sorte. Você vai precisar.
Um comentário:
O autor do discurso chama-se Jon Favreau e segundo li, trata-se de um "talentosíssimo garoto de 27 anos, que se tornou o redator dos discursos do candidato Obama, e passou os últimos dois meses escrevendo o texto que o agora Presidente dos EUA pronunciou ontem". (cf. Folha de S.Paulo 21/01/09)
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