segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Solzhenitsyn e a Ordem Global

A morte do escritor russo Alexander Solzhenitsyn semana passada ilustrou o contraste entre duas maneiras de se enxergar o mundo.

Para o conservador "Financial Times", de Londres, Solzhenitsyn foi "o ultimo dos grandes moralistas russos". Como Tolstoy, ele acreditava estar em uma "missao divina" para salvar o povo Russo da tirania exercida pelo regime Sovietico no pos-guerra. A crenca nesta missao o dotara da obstinacao e coragem necessarias para suportar uma vida de grandes sacrificios, como os oito anos em que passou num campo de concentracao (retratados em "O Arquipelago Gulag"), ou os vinte anos de exilio apos sua expulsao da URSS, em 1974. Porem, ao regressar a sua patria em 1994, Solzhenitsyn fora superado pela abertura da Russia aa economia de mercado, transformando-se num bufao que berrava palavras de ordem contra o sistema capitalista. Morrera condenado aa insignificancia pela propria liberdade que pretendera um dia restaurar aos seus compatriotas.

Ja para o progressista parisiense "Le Monde", Solzhenitsyn foi um raro "heroi dissidente", da estirpe de Hugo e de Voltaire. Sua obra eh caracterizada pela definicao da Historia atraves do individuo e da condicao humana. Retrata a "fabrica do desumano" em uma sociedade totalitaria, bem como a "perda do individuo" na sociedade industrial. Para o "Le Monde", o fracasso das obras de Solzhenitsyn na Russia apos o seu retorno do exilio fora um "fracasso literario genial", porque constituia prova irrefutavel da mediocridade da "intelligentsia" russa. O grande legado de sua obra eh a constatacao de que o homem escolhe ser bom ou mau, e que na Russia houve uma preferencia clara pela segunda opcao. Eh a sentenca de morte da justica no sentido aristotelico da palavra.


No Gulag, o guarda nao encontrou os manuscritos de "Arquipelago"
Achei interessante o que duas interpretacoes distintas sobre a mesma vida e obra revelam sobre o carater e ideologia de um povo: para os "liberais" ingleses, se gritas contra os horrores do Stalinismo, es um profeta. Porem, se clamas contra a sociedade de consumo, es bobo-da-corte. Os franceses, impregnados pelo espirito de maio de 1968, ainda sao tomados de amores pela figura romantica do artista rebelde, a quem se deve perdoar tudo - inclusive a incapacidade de se comunicar.

Voila duas visoes de mundo conflitantes, que a era da "pos-globalizacao" colocara em conflito direto num futuro bem proximo.

Quem vencera?

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